10/11/2015

“Perguntam-me que sacrifícios fiz. Não fiz sacrifícios, fiz escolhas.” (Aung San Suu Kyi)

Na Birmânia/Myanmar, as eleições de domingo passado (8-11-2015) foram novamente ganhas pelo partido de oposição à ditadura militar, a ‘Liga Nacional para a Democracia’, liderado por Aung San Suu Kyi. O mesmo tinha acontecido em 1990, mas a junta militar ignorou os resultados e colocou Aung San Suu Kyi em prisão domiciliária – por 15 anos. Depois da farsa que foram as pseudo-eleições de 2010, talvez agora os resultados sejam respeitados. Os chefes militares não resolveram de repente ser bonzinhos: têm garantidos 25% dos lugares no parlamento, mas, sobretudo, detêm um colossal poder económico num país cheio de recursos naturais preciosos (gás natural, petróleo, pedras precisosas, minérios vários). E quem precisa do Parlamento quando é dono da riqueza?... A Birmânia é dos países do mundo com maior discrepância entre ricos e pobres. Ainda em 2007, quando as pessoas sairam à rua em protesto contra o aumento dos preços dos combustíveis, a agravar as já dificílimas condições de vida da generalidade da população, foram recebidas por militares e polícias que dispararam contra tudo e contra todos. Aqui fica uma história da Birmânia que encontrei poucos meses depois.

«Que livro?»...
Sempre que ouvia falar de 1984, o romance que George Orwell escreveu em 1948, antecipando uma sociedade dominada por um regime totalitário, respirava de alívio. Nós, os que ainda nos lembramos de Portugal, e de Espanha, antes de 1974, tínhamos assistido ao percurso inverso: a passagem da ditadura à democracia. Afinal, Orwell tinha-se enganado, podíamos estar descansados. Tola ignorância a minha! Ferozes tiranias como a de 1984 existem por esse mundo fora – e eu fui encontrar uma na Birmânia, no ano de 2008.
Tudo começou assim que fui pedir o visto. Estava em Vientiane, a capital do Laos, e dirigi-me à embaixada da União de Myanmar, o nome com o qual, em 1989, a junta militar rebatizou a Birmânia.  
Fui recebida por um funcionário birmanês – com ar desconfiado e muitas perguntas, como é próprio destes regimes que vêem inimigos em todo o lado. Quis saber a minha profissão, onde trabalho, há quanto tempo… Lá tive de mentir e dizer que trabalho onde já não trabalho. Pediu-me quatro fotografias e deu-me outros tantos impressos para preencher. Em letras gordas, obrigam-me a prometer «não interferir nos assuntos internos» do país, e a não me «envolver em actividades alheias ao propósito da viagem» – o qual deverá ser estritamente turismo. Querem saber o nome do meu falecido pai, e pedem-me que classifique a minha complexion (tez). Nem sei bem o que isso é. Escolho fair, parece-me justo. Começo a perder a paciência com tanta pergunta, mas acho melhor disfarçar e pôr um ar de dama desamparada – e assim consigo que me dêem o visto em apenas 48 horas. Vá lá…
Três dias depois, estou a bordo de um avião a caminho de Yangon, a cidade anteriormente conhecida como Rangoon e, até há poucos anos, a capital do país.
Eu preferia ir por terra – o Laos faz fronteira com a Birmânia, e bastar-me-ia atravessar o rio Mekong. Mas não me deixam, obrigam toda a gente a entrar no país de avião. Saberei depois porquê: as zonas fronteiriças birmanesas são povoadas por diversos grupos étnicos que desde sempre se rebelaram contra os sucessivos poderes centrais, e ainda hoje persistem focos de guerrilha. Para além disso, é a zona do Triângulo Dourado, onde, a despeito da propaganda do governo, se mantém a produção de ópio, reputadamente uma das fontes de financiamento da junta militar.
Quando finalmente aterro em Yangon, encontro um aeroporto surpreendentemente moderno – até se perceber que o ar condicionado não funciona, pelo que toda a gente se abana furiosamente num calor de trinta e muitos graus. Pouco depois, a electricidade falha e ficamos todos às escuras, frente ao balcão do check-in. É assim na Birmânia: com rios, petróleo e gás natural em abundância, não dispõe de electricidade 24 horas por dia. Excepto, claro, na atual capital, Nay Pyi Taw, onde vivem os militares do governo.
À saída do aeroporto, escapo aos serviços do Ministério dos Hotéis e Turismo, porque não quero dar dinheiro a ganhar ao governo e, na rua, apanho um táxi desconjuntado que me leva à baixa da cidade. É já de noite quando finalmente encontro um hotelzinho. É uma casa de família, onde a Miss La La recebe os hóspedes com o calor e o desvelo de uma mãe. Recebe-me com chá e fruta, e a conversa vai rapidamente dar ao assunto que será recorrente nas muitas conversas que terei durante as quatro semanas da minha estadia na Birmânia: o descontentamento com o governo.
No dia seguinte, saio às ruas de Yangon. A propaganda turística oficial descreve a cidade como tendo «um encanto único, com os seus edifícios coloniais, ruas orladas por árvores, lagos tranquilos e pagodes cintilantes». Pois bem, os edifícios coloniais – como tudo o resto – não têm manutenção, e vão sucumbindo à idade e à humidade; as ruas são uma sucessão de buracos e montes de lixo que nenhuns serviços municipais recolhem; à beira de um dos tranquilos lagos, o governo manteve sob prisão domiciliária a dirigente da oposição; e do cintilante pagode Shwedagon saíram, em Setembro de 2007, de mãos nuas, os monges que as forças governamentais não tiveram pejo em alvejar.


 
Um «talho» em Yangoon

Como em todo o Sudeste Asiático, aqui vive-se sobretudo na rua. Há restaurantes improvisados com mesas e cadeiras tão baixinhas que comemos com os joelhos contra o peito; há «casas de chá» onde os rapazes encarregados de aquecer a água se entretêm a fisgar os ratos; há talhos em traseiras de camionetas; há fogões ambulantes onde se cozinham mais ossos e gordura que carne; há bancas de fruta e de gafanhotos fritos – e há livrarias, muitas.
Apercebo-me rapidamente que Yangon é uma cidade perigosa para quem gosta de livros: a cidade parou no tempo, e encontram-se por isso preciosidades às quais é impossível resistir. Há de tudo, numa mistura sortida que inclui James Joyce, Somerset Maugham, John Steinbeck, Engels, mas também uma colecção de Selecções do Reader’s Digest dos anos 50, para além de inegáveis utilidades tais como Equipamento Moderno de Pesca e O Guia das Festas de Jardim. Tudo em exemplares amarelecidos pelo tempo e carcomidos pela formiga branca. Encontrei até um Manual de Topografia de 1968, entalado entre a Madame Bovary e a Educação Sentimental… Um dos livreiros, um rapazinho bonito e de ar tímido, sem que eu perceba porquê, oferece-me A Arte de Viver, um livro sobre o Budismo. Eu tento recusar a oferta, quero pagar-lhe, mas ele insiste que não quer dinheiro. É um rapaz que, muito provavelmente, como a maioria da população da Birmânia, vive no limiar da pobreza. Não fala inglês, e vamo-nos entendendo por gestos e pouco mais. Fiquei sem saber porque insiste em me oferecer um livro – e resolvo, à guisa de compensação, comprar-lhe outro. A minha escolha recai sobre uma verdadeira preciosidade: O Guia do Matrimónio. É um gordo volume, de 1909, que contém conselhos preciosos, em capítulos intitulados «Homens que uma mulher não deve escolher» e «Mulheres que um homem não deve escolher» – tudo baseado nas feições e dimensões do crânio das criaturas. Um primor da antropometria, verdadeira ciência, ora pois. Pago um livro, agradeço-lhe o outro, e sigo o meu caminho, preparada para a vida. Vou munida d’A Arte de Viver e d’O Guia do Matrimónio. De que mais pode uma rapariga precisar?...
Por todo o lado se encontra o único livro de George Orwell que é possível encontrar: Os Dias da Birmânia. «Então, e outros livros do mesmo autor?», pergunto. Não há. Especifico quais: 1984 e Animal Farm (O Triunfo dos Porcos). Pois... não há. E era previsível que não houvesse: embora inicialmente inspirados na tirania estalinista, os dois livros são uma sátira corrosiva a todos os regimes  opressivos. Como tal, foram banidos pela junta militar birmanesa. A jornalista que escreve sob o pseudónimo de Emma Larkin, conta que Orwell é conhecido na Birmânia como «o profeta» – justamente por, com esses dois livros, ter antecipado o futuro do país onde ele próprio viveu.
Ao fim de muito perguntar, há um livreiro que vem sorrateiramente atrás de mim e diz a meia-voz: «Volte daqui a dois dias. Eu arranjo os livros». Assim fiz. Dois dias depois, numa rua perto do pagode Sule, no lusco-fusco do cair da noite, passou-mos para a mão, com orgulho. O exemplar de Animal Farm é belíssimo: de capa dura, forrado a tecido, e enriquecido com os diversos prefácios que o autor escreveu. «Mandei vir pela minha irmã, que vive em Singapura!» explica ele, triunfante. Gosta tanto do livro, que quer ficar com ele. Acho bem, merece-o. Compro-lhe o 1984, numa edição popular com os cantos já gastos.
E ali ficamos a conversar do assunto incontornável – entre meias frases, e com ele sempre a olhar à volta. Tenho medo que as conversas que eu desencadeio acabem por colocar em risco estas pessoas. Ao falar contra o governo, eu arrisco apenas a expulsão do país – mas elas arriscam a prisão e a tortura.
E este homem de livros, que fala e lê inglês, tem ele o ar de um intelectual, urbano e académico? Não propriamente. Este livreiro, de pano desbotado atado à cintura, chinelos gastos, tronco suado e dentes escurecidos pelo bétel, tem ar daquilo que é – um birmanês pobre, mesmo se conhece livros estrangeiros banidos. Estamos num país onde 90% da população vive com menos de um dólar por dia, enquanto o governo militar vive no maior fausto, na cidade capital que construiu só para si, e sustentado por metade do orçamento nacional.

Uma das muitas «livrarias» de rua
Um dos muitos pagodes

 Na madrugada seguinte, deixei Yangon. Tinha de sair muito cedo e, para meu embaraço, a Miss La La preparava-se para se levantar às quatro da manhã para me fazer o pequeno-almoço. Insisti que não, ela que dormisse descansada, eu posso bem sair sem comer. Não a consegui demover: «You are my guest! (És minha hóspede!)», respondeu ela, com aquele ar protetor. Não o sabia ainda, mas na Birmânia, os donos destes pequenos hotéis familiares são das pessoas mais afáveis e prestáveis que alguma vez conheci. E tudo isto a troco de 10 dólares por noite…
Para fugir ao calor abrasador que pesa sobre a Birmânia em abril, escapo-me para Kalaw, uma cidadezinha fresca no centro do país, graças aos seus 1300 metros de altitude.
A estrada não é uma estrada: é uma colagem de bocados de alcatrão repleta de buracos, que alguém vai preenchendo, ora com brita, ora com pedregulhos. Ao longo dos bordos carcomidos, formam-se poças de água onde se afundam as rodas dos carros de bois. São 12 horas de calor e solavancos num autocarro decrépito e apinhado, que guincha a cada safanão. À beira do caminho, uma cabra estica-se sobre as patas traseiras para chegar às folhas mais altas de um arbusto coberto de poeira. Eu, pelo meu lado, vou comendo um triste farnel: laranjas secas e bolachas rançosas – a única coisa que consegui encontrar na última povoação onde parámos. O século XXI ainda não chegou aqui. E, a menos do autocarro, nem sequer o século XX.
Chegada a Kalaw, instalei-me na pensão de uma família sikh, vinda da Índia há duas gerações, nos tempos do Raj. Adiei as formalidades do check-in, desesperada que estava para tomar um longo duche que tirasse de mim a muita poeira da viagem, após o que, esfomeada, saí para jantar. Quando finalmente regressei à pensão, encontrei a dona num alvoroço:
― Tem de me trazer o passaporte! A Polícia já telefonou a perguntar por si!
― Hããã?!! Mas fazem isso com todos os estrangeiros?
Diz-me que não, que é uma exigência que fazem apenas com os que viajam com passaporte diplomático, e com os jornalistas mal disfarçados que metem o nariz onde não devem.
― Então, porquê eu??!
Ninguém sabe porquê, a Polícia não deu explicações – mas mandou fotocopiar duas páginas do meu passaporte, que as viriam buscar no dia seguinte.
Na manhã seguinte, bem cedo, lá estava eu pronta para confrontar o polícia. De nada me serviu: trocaram-me as voltas e vieram de noite, quando eu estava a dormir. Desconcertada, e com as leituras e a escrita para pôr em dia, instalei-me na varanda com vista sobre a cidade, enquanto lá em baixo os monges saíam à rua para receber as oferendas da população – oferendas essas que são praticamente o seu único sustento.
Pouco depois, a dona da pensão chamou-me para preencher mais uns impressos – e  dizer-me que a Polícia voltou a telefonar, a perguntar onde fui.
― Não foi a lado nenhum, está no quarto a ler um livro – respondeu ela.
― Que livro? – perguntou o polícia…
Não caibo em mim de incredulidade. Estas coisas acontecem nos romances e nos filmes, mas não esperamos que aconteçam nas nossas vidas. A pergunta «Que livro?» não me sai da cabeça. Como sempre, os livros incomodam muito as ditaduras. E reparo que é 4 de abril, exactamente o mesmo dia em que Winston Smith, o protagonista de 1984, inicia o seu diário – um crime perseguido pela «Polícia do Pensamento».

A cerimónia de receção de oferendas

Ainda considerei a possibilidade de ir à esquadra perguntar qual era o problema. Mas não podia – isso poria em risco a dona da pensão, por não ter sido discreta como devia. Nunca saberei o que pôs a Polícia de olho em mim – se o facto de ter procurado livros banidos, se o ter-me encontrado com estudantes e professores perseguidos, se o ter estado com familiares da dirigente da oposição, Aung San Suu Kyi…
Mas essa é matéria para outra história – uma outra história de uma viagem a 1984 em 2008.
________________________________________
  
«Vemos os ditadores nos seus pedestais, rodeados pelas baionetas dos seus soldados 
e pelos bastões dos seus polícias. No entanto, sentem um medo inconfessado:
têm medo de palavras e pensamentos
(Winston Churchill)

Advertência ao leitor – à guisa de manifesto
Para quê mais um blogue com histórias de viagem? Foi a pergunta que se me colocou durante os muitos anos em que não o escrevi. Não tenho façanhas de que me gabar, nem troféus para exibir. Não fui a primeira a chegar onde quer que fosse; não subi a montanha mais alta; não desci o rio mais longo. Nem o facto de ser colega de profissão de Gago Coutinho e de George Everest me permitiu ser pioneira ou descobridora. Porque o mundo que eles conheceram está descoberto, fotografado, cartografado, explorado – e sobre-explorado. As descobertas, hoje, terão de ser outras.
Se algum mérito me assiste (e gostaria de pensar que sim, ou este blogue não existiria), será o que fez aquele inglês sentar-se à minha mesa, numa manhã na costa do Vietname, e perguntar-me: «Olha lá, o que é que tu fazes para as pessoas chegarem ao pé de ti e te contarem a vida delas toda?» (E contou-me a vida dele toda...).
Nunca tinha pensado nisso. Pensava que o mesmo acontecia com as outras pessoas. E passei a observar. Foi então que reparei nos muitos viajantes de auscultadores enfiados nos ouvidos e nariz enfiado em ipods e ipads, em netbooks e tablets, em blackberries e phones mais smart que os donos. Chamam-lhe «a era da comunicação». Teclam, twitam, postam, contam likes. Mas, para mim, que sou uma rapariga antiquada, a comunicação é feita cara a cara, de viva voz, olhos nos olhos. Num mundo de aviões e downloads instantâneos, eu ando devagar, utilizando mais tempo que dinheiro. Ou, se calhar, o que faço nem é viajar, mas sim demorar-me sucessivamente em sítios diferentes, como os nómadas.
E viajo sozinha – ou melhor, a solo – acompanhada pelas muitas pessoas que vou conhecendo. São as histórias delas – mais do que as minhas – que justificam este blogue. Um blogue que, afinal de contas, conterá algumas façanhas: as das mulheres que criam filhos em campos de refugiados, ou as dos miúdos que andam a pé oito horas por dia para irem à escola.
Talvez estes textos consigam transmitir a imagem de um universo onde abundam os gestos de hospitalidade, de generosidade, e os pequenos heroísmos do quotidiano. Porque a espécie humana, não sendo de facto um primor, não é tão má como consta. As pessoas que encontro pelo caminho são, na esmagadora maioria, exemplos de hospitalidade, tolerância, heroísmo, trabalho, e até bom humor. E quando encontro a minoria dos que são desagradáveis, lembro-me das palavras de Khalil Gibran: «Aprendi tolerância com os intolerantes, e bondade com os maldosos.»
Talvez estes textos consigam também inspirar e sossegar as dúvidas de quem quer partir à descoberta do mundo e receie (como eu receava) que isso seja uma fantasia impraticável. Porque não é.
Se este blogue conseguir fazer alguma destas coisas, já justificou a sua existência. E talvez eu acabe, afinal, por ter algo de que me gabar.


Paquistão, 1988
Moçambique, 2011
Sarawak, 1989



Nepal, 2010
Rota da Seda, 1988

03/11/2015

A Arte de Viajar - workshop  no Museu do Oriente

Uma viagem pode ser o cumprir de um sonho – ou um pesadelo. Tudo depende de... muita coisa. Depois de decidir onde ir, ler os guias, comprar o bilhete, obter os vistos, fazer a mala – depois de tudo isso, começa o essencial. Como conviver com as diferenças culturais? Como se comportar? Como acautelar as questões de segurança? Como lidar com os assédios? Como se proteger da eventual desilusão? Que impacto positivo pode a viagem ter em nós – e nos outros?
Destas e doutras questões falamos neste workshop sobre “a arte de viajar”. Não é um receituário sobre a forma certa de viajar – porque cada pessoa terá de encontrar a sua. É, sim, uma tertúlia para a qual os participantes podem contribuir com as suas experiências e histórias de viagem, as suas dúvidas e os seus sonhos. Viajantes como Wilfred Thesiger, Ella Maillart, Rolf Potts ou Jan Morris estarão também connosco. Uma oportunidade para inspirar e inspirar-se.
O workshop está aberto aos que já viajaram, aos que ainda não viajaram, e até aos que não querem viajar.