“Perguntam-me que sacrifícios fiz.
Não fiz sacrifícios, fiz escolhas.” (Aung San Suu Kyi)
Na Birmânia/Myanmar, as eleições de
domingo passado (8-11-2015) foram novamente ganhas pelo partido de oposição à ditadura
militar, a ‘Liga Nacional para a Democracia’, liderado por Aung San Suu Kyi. O
mesmo tinha acontecido em 1990, mas a junta militar ignorou os resultados e
colocou Aung San Suu Kyi em prisão domiciliária – por 15 anos. Depois da farsa
que foram as pseudo-eleições de 2010, talvez agora os resultados sejam
respeitados. Os chefes militares não resolveram de repente ser bonzinhos: têm
garantidos 25% dos lugares no parlamento, mas, sobretudo, detêm um colossal
poder económico num país cheio de recursos naturais preciosos (gás natural,
petróleo, pedras precisosas, minérios vários). E quem precisa do Parlamento quando é dono da riqueza?... A Birmânia é dos países do mundo
com maior discrepância entre ricos e pobres. Ainda em 2007, quando as pessoas
sairam à rua em protesto contra o aumento dos preços dos combustíveis, a
agravar as já dificílimas condições de vida da generalidade da população, foram
recebidas por militares e polícias que dispararam contra tudo e contra todos. Aqui
fica uma história da Birmânia que encontrei poucos meses depois.
«Que livro?»...
Sempre que ouvia falar de 1984, o romance que George Orwell
escreveu em 1948, antecipando uma sociedade dominada por um regime totalitário,
respirava de alívio. Nós, os que ainda nos lembramos de Portugal, e de Espanha,
antes de 1974, tínhamos assistido ao percurso inverso: a passagem da ditadura à
democracia. Afinal, Orwell tinha-se enganado, podíamos estar descansados. Tola
ignorância a minha! Ferozes tiranias como a de 1984 existem por esse mundo fora – e eu fui encontrar uma na
Birmânia, no ano de 2008.
Tudo começou assim que fui pedir o visto. Estava em Vientiane,
a capital do Laos, e dirigi-me à embaixada da União de Myanmar, o nome com o qual,
em 1989, a junta militar rebatizou a Birmânia.
Fui recebida por um funcionário birmanês – com ar desconfiado
e muitas perguntas, como é próprio destes regimes que vêem inimigos em todo o
lado. Quis saber a minha profissão, onde trabalho, há quanto tempo… Lá tive de
mentir e dizer que trabalho onde já não trabalho. Pediu-me quatro fotografias e
deu-me outros tantos impressos para preencher. Em letras gordas, obrigam-me a
prometer «não interferir nos assuntos internos» do país, e a não me «envolver
em actividades alheias ao propósito da viagem» – o qual deverá ser estritamente
turismo. Querem saber o nome do meu falecido pai, e pedem-me que classifique a
minha complexion (tez). Nem sei bem o
que isso é. Escolho fair, parece-me
justo. Começo a perder a paciência com tanta pergunta, mas acho melhor
disfarçar e pôr um ar de dama desamparada – e assim consigo que me dêem o visto
em apenas 48 horas. Vá lá…
Três dias depois, estou a bordo de um avião a caminho de
Yangon, a cidade anteriormente conhecida como Rangoon e, até há poucos anos, a
capital do país.
Eu preferia ir por terra – o Laos faz fronteira com a Birmânia,
e bastar-me-ia atravessar o rio Mekong. Mas não me deixam, obrigam toda a gente
a entrar no país de avião. Saberei depois porquê: as zonas fronteiriças
birmanesas são povoadas por diversos grupos étnicos que desde sempre se
rebelaram contra os sucessivos poderes centrais, e ainda hoje persistem focos
de guerrilha. Para além disso, é a zona do Triângulo Dourado, onde, a despeito
da propaganda do governo, se mantém a produção de ópio, reputadamente uma das
fontes de financiamento da junta militar.
Quando finalmente aterro em Yangon, encontro um aeroporto
surpreendentemente moderno – até se perceber que o ar condicionado não
funciona, pelo que toda a gente se abana furiosamente num calor de trinta e
muitos graus. Pouco depois, a electricidade falha e ficamos todos às escuras,
frente ao balcão do check-in. É assim
na Birmânia: com rios, petróleo e gás natural em abundância, não dispõe de
electricidade 24 horas por dia. Excepto, claro, na atual capital, Nay Pyi Taw,
onde vivem os militares do governo.
À saída do aeroporto, escapo aos serviços do Ministério dos
Hotéis e Turismo, porque não quero dar dinheiro a ganhar ao governo e, na rua,
apanho um táxi desconjuntado que me leva à baixa da cidade. É já de noite
quando finalmente encontro um hotelzinho. É uma casa de família, onde a Miss La
La recebe os hóspedes com o calor e o desvelo de uma mãe. Recebe-me com chá e
fruta, e a conversa vai rapidamente dar ao assunto que será recorrente nas
muitas conversas que terei durante as quatro semanas da minha estadia na Birmânia:
o descontentamento com o governo.
No dia seguinte, saio às ruas de Yangon. A propaganda
turística oficial descreve a cidade como tendo «um encanto único, com os seus
edifícios coloniais, ruas orladas por árvores, lagos tranquilos e pagodes
cintilantes». Pois bem, os edifícios coloniais – como tudo o resto – não têm
manutenção, e vão sucumbindo à idade e à humidade; as ruas são uma sucessão de
buracos e montes de lixo que nenhuns serviços municipais recolhem; à beira de
um dos tranquilos lagos, o governo manteve sob prisão domiciliária a dirigente
da oposição; e do cintilante pagode Shwedagon saíram, em Setembro de 2007, de
mãos nuas, os monges que as forças governamentais não tiveram pejo em alvejar.
Como em todo o Sudeste Asiático, aqui vive-se sobretudo na
rua. Há restaurantes improvisados com mesas e cadeiras tão baixinhas que
comemos com os joelhos contra o peito; há «casas de chá» onde os rapazes
encarregados de aquecer a água se entretêm a fisgar os ratos; há talhos em
traseiras de camionetas; há fogões ambulantes onde se cozinham mais ossos e
gordura que carne; há bancas de fruta e de gafanhotos fritos – e há livrarias,
muitas.
Apercebo-me rapidamente que Yangon é uma cidade perigosa para
quem gosta de livros: a cidade parou no tempo, e encontram-se por isso
preciosidades às quais é impossível resistir. Há de tudo, numa mistura sortida
que inclui James Joyce, Somerset Maugham, John Steinbeck, Engels, mas também
uma colecção de Selecções do Reader’s Digest dos anos 50, para além de
inegáveis utilidades tais como Equipamento
Moderno de Pesca e O Guia das Festas
de Jardim. Tudo em exemplares amarelecidos pelo tempo e carcomidos pela
formiga branca. Encontrei até um Manual de Topografia de 1968, entalado entre a
Madame Bovary e a Educação Sentimental… Um dos livreiros,
um rapazinho bonito e de ar tímido, sem que eu perceba porquê, oferece-me A Arte de Viver, um livro sobre o
Budismo. Eu tento recusar a oferta, quero pagar-lhe, mas ele insiste que não quer
dinheiro. É um rapaz que, muito provavelmente, como a maioria da população da
Birmânia, vive no limiar da pobreza. Não fala inglês, e vamo-nos entendendo por
gestos e pouco mais. Fiquei sem saber porque insiste em me oferecer um livro –
e resolvo, à guisa de compensação, comprar-lhe outro. A minha escolha recai
sobre uma verdadeira preciosidade: O Guia
do Matrimónio. É um gordo volume, de 1909, que contém conselhos preciosos,
em capítulos intitulados «Homens que uma mulher não deve escolher» e «Mulheres
que um homem não deve escolher» – tudo baseado nas feições e dimensões do
crânio das criaturas. Um primor da antropometria, verdadeira ciência, ora pois.
Pago um livro, agradeço-lhe o outro, e sigo o meu caminho, preparada para a
vida. Vou munida d’A Arte de Viver e
d’O Guia do Matrimónio. De que mais
pode uma rapariga precisar?...
Por todo o lado se encontra o único livro de George Orwell que
é possível encontrar: Os Dias da Birmânia.
«Então, e outros livros do mesmo autor?», pergunto. Não há. Especifico quais: 1984 e Animal Farm (O Triunfo dos
Porcos). Pois... não há. E era previsível que não houvesse: embora
inicialmente inspirados na tirania estalinista, os dois livros são uma sátira
corrosiva a todos os regimes opressivos.
Como tal, foram banidos pela junta militar birmanesa. A jornalista que escreve
sob o pseudónimo de Emma Larkin, conta que Orwell é conhecido na Birmânia como
«o profeta» – justamente por, com esses dois livros, ter antecipado o futuro do
país onde ele próprio viveu.
Ao fim de muito perguntar, há um livreiro que vem
sorrateiramente atrás de mim e diz a meia-voz: «Volte daqui a dois dias. Eu
arranjo os livros». Assim fiz. Dois dias depois, numa rua perto do pagode Sule,
no lusco-fusco do cair da noite, passou-mos para a mão, com orgulho. O exemplar
de Animal Farm é belíssimo: de capa
dura, forrado a tecido, e enriquecido com os diversos prefácios que o autor
escreveu. «Mandei vir pela minha irmã, que vive em Singapura!» explica ele,
triunfante. Gosta tanto do livro, que quer ficar com ele. Acho bem, merece-o.
Compro-lhe o 1984, numa edição
popular com os cantos já gastos.
E ali ficamos a conversar do assunto incontornável – entre
meias frases, e com ele sempre a olhar à volta. Tenho medo que as conversas que
eu desencadeio acabem por colocar em risco estas pessoas. Ao falar contra o
governo, eu arrisco apenas a expulsão do país – mas elas arriscam a prisão e a
tortura.
E este homem de livros, que fala e lê inglês, tem ele o ar de
um intelectual, urbano e académico? Não propriamente. Este livreiro, de pano
desbotado atado à cintura, chinelos gastos, tronco suado e dentes escurecidos
pelo bétel, tem ar daquilo que é – um birmanês pobre, mesmo se conhece livros
estrangeiros banidos. Estamos num país onde 90% da população vive com menos de
um dólar por dia, enquanto o governo militar vive no maior fausto, na cidade
capital que construiu só para si, e sustentado por metade do orçamento
nacional.
| Uma das muitas «livrarias» de rua |
| Um dos muitos pagodes |
Na madrugada seguinte, deixei Yangon. Tinha de sair muito cedo
e, para meu embaraço, a Miss La La preparava-se para se levantar às quatro da
manhã para me fazer o pequeno-almoço. Insisti que não, ela que dormisse
descansada, eu posso bem sair sem comer. Não a consegui demover: «You are my guest! (És minha hóspede!)»,
respondeu ela, com aquele ar protetor. Não o sabia ainda, mas na Birmânia, os
donos destes pequenos hotéis familiares são das pessoas mais afáveis e
prestáveis que alguma vez conheci. E tudo isto a troco de 10 dólares por noite…
Para fugir ao calor abrasador que pesa sobre a Birmânia em
abril, escapo-me para Kalaw, uma cidadezinha fresca no centro do país, graças
aos seus 1300 metros de altitude.
A estrada não é uma estrada: é uma colagem de bocados de
alcatrão repleta de buracos, que alguém vai preenchendo, ora com brita, ora com
pedregulhos. Ao longo dos bordos carcomidos, formam-se poças de água onde se
afundam as rodas dos carros de bois. São 12 horas de calor e solavancos num
autocarro decrépito e apinhado, que guincha a cada safanão. À beira do caminho,
uma cabra estica-se sobre as patas traseiras para chegar às folhas mais altas
de um arbusto coberto de poeira. Eu, pelo meu lado, vou comendo um triste
farnel: laranjas secas e bolachas rançosas – a única coisa que consegui
encontrar na última povoação onde parámos. O século XXI ainda não chegou aqui.
E, a menos do autocarro, nem sequer o século XX.
Chegada a Kalaw, instalei-me na pensão de uma família sikh,
vinda da Índia há duas gerações, nos tempos do Raj. Adiei as formalidades do check-in, desesperada que estava para
tomar um longo duche que tirasse de mim a muita poeira da viagem, após o que,
esfomeada, saí para jantar. Quando finalmente regressei à pensão, encontrei a
dona num alvoroço:
― Tem de me trazer o passaporte! A Polícia já telefonou a
perguntar por si!
― Hããã?!! Mas fazem isso com todos os estrangeiros?
Diz-me que não, que é uma exigência que fazem apenas com os
que viajam com passaporte diplomático, e com os jornalistas mal disfarçados que
metem o nariz onde não devem.
― Então, porquê eu??!
Ninguém sabe porquê, a Polícia não deu explicações – mas
mandou fotocopiar duas páginas do meu passaporte, que as viriam buscar no dia
seguinte.
Na manhã seguinte, bem cedo, lá estava eu pronta para
confrontar o polícia. De nada me serviu: trocaram-me as voltas e vieram de
noite, quando eu estava a dormir. Desconcertada, e com as leituras e a escrita
para pôr em dia, instalei-me na varanda com vista sobre a cidade, enquanto lá
em baixo os monges saíam à rua para receber as oferendas da população –
oferendas essas que são praticamente o seu único sustento.
Pouco depois, a dona da pensão chamou-me para preencher mais
uns impressos – e dizer-me que a Polícia
voltou a telefonar, a perguntar onde fui.
― Não foi a lado nenhum, está no quarto a ler um livro –
respondeu ela.
― Que livro? – perguntou o polícia…
Não caibo em mim de incredulidade. Estas coisas acontecem nos
romances e nos filmes, mas não esperamos que aconteçam nas nossas vidas. A
pergunta «Que livro?» não me sai da cabeça. Como sempre, os livros incomodam
muito as ditaduras. E reparo que é 4 de abril, exactamente o mesmo dia em que
Winston Smith, o protagonista de 1984,
inicia o seu diário – um crime perseguido pela «Polícia do Pensamento».
| A cerimónia de receção de oferendas |
Ainda considerei a possibilidade de ir à esquadra perguntar
qual era o problema. Mas não podia – isso poria em risco a dona da pensão, por
não ter sido discreta como devia. Nunca saberei o que pôs a Polícia de olho em
mim – se o facto de ter procurado livros banidos, se o ter-me encontrado com
estudantes e professores perseguidos, se o ter estado com familiares da
dirigente da oposição, Aung San Suu Kyi…
Mas essa é matéria para outra história – uma outra história de
uma viagem a 1984 em 2008.
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«Vemos os ditadores nos seus pedestais,
rodeados pelas baionetas dos seus soldados
e pelos bastões dos seus polícias. No entanto, sentem um medo inconfessado:
e pelos bastões dos seus polícias. No entanto, sentem um medo inconfessado:
têm
medo de palavras e pensamentos.»
(Winston Churchill)






