Advertência ao leitor –
à guisa de manifesto
Para quê mais um blogue com histórias de
viagem? Foi a pergunta que se me colocou durante os muitos anos em que não o
escrevi. Não tenho façanhas de que me gabar, nem troféus para exibir. Não fui a
primeira a chegar onde quer que fosse; não subi a montanha mais alta; não desci
o rio mais longo. Nem o facto de ser colega de profissão de Gago Coutinho e de George Everest
me permitiu ser pioneira ou descobridora. Porque o mundo que eles conheceram
está descoberto, fotografado, cartografado, explorado – e sobre-explorado. As
descobertas, hoje, terão de ser outras.
Se algum mérito me assiste
(e gostaria de pensar que sim, ou este blogue não existiria), será o que fez
aquele inglês sentar-se à minha mesa, numa manhã na costa do Vietname, e
perguntar-me: «Olha lá, o que é que tu fazes para as pessoas chegarem ao pé de
ti e te contarem a vida delas toda?» (E contou-me a vida dele toda...).
Nunca tinha pensado nisso.
Pensava que o mesmo acontecia com as outras pessoas. E passei a observar. Foi
então que reparei nos muitos viajantes de auscultadores enfiados nos ouvidos e
nariz enfiado em ipods e ipads, em netbooks e tablets, em blackberries e phones mais smart que os
donos. Chamam-lhe «a era da comunicação». Teclam, twitam, postam, contam likes. Mas, para mim, que sou uma
rapariga antiquada, a comunicação é feita cara a cara, de viva voz, olhos nos
olhos. Num mundo de aviões e downloads
instantâneos, eu ando devagar, utilizando mais tempo que dinheiro. Ou, se
calhar, o que faço nem é viajar, mas sim demorar-me sucessivamente em sítios
diferentes, como os nómadas.
E viajo sozinha – ou
melhor, a solo – acompanhada pelas
muitas pessoas que vou conhecendo. São as histórias delas – mais do que as
minhas – que justificam este blogue. Um blogue que, afinal de contas, conterá
algumas façanhas: as das mulheres que criam filhos em campos de refugiados, ou
as dos miúdos que andam a pé oito horas por dia para irem à escola.
Talvez estes textos consigam
transmitir a imagem de um universo onde abundam os gestos de hospitalidade, de
generosidade, e os pequenos heroísmos do quotidiano. Porque a espécie humana,
não sendo de facto um primor, não é tão má como consta. As pessoas que encontro
pelo caminho são, na esmagadora maioria, exemplos de hospitalidade, tolerância,
heroísmo, trabalho, e até bom humor. E quando encontro a minoria dos que são
desagradáveis, lembro-me das palavras de Khalil Gibran: «Aprendi tolerância com
os intolerantes, e bondade com os maldosos.»
Talvez estes textos consigam
também inspirar e sossegar as dúvidas de quem quer partir à descoberta do mundo
e receie (como eu receava) que isso seja uma fantasia impraticável. Porque não
é.
Se este blogue conseguir
fazer alguma destas coisas, já justificou a sua existência. E talvez eu acabe,
afinal, por ter algo de que me gabar.
| Paquistão, 1988 |
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| Moçambique, 2011 |
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| Sarawak, 1989 |
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| Nepal, 2010 |
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| Rota da Seda, 1988 |




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