10/11/2015

Advertência ao leitor – à guisa de manifesto
Para quê mais um blogue com histórias de viagem? Foi a pergunta que se me colocou durante os muitos anos em que não o escrevi. Não tenho façanhas de que me gabar, nem troféus para exibir. Não fui a primeira a chegar onde quer que fosse; não subi a montanha mais alta; não desci o rio mais longo. Nem o facto de ser colega de profissão de Gago Coutinho e de George Everest me permitiu ser pioneira ou descobridora. Porque o mundo que eles conheceram está descoberto, fotografado, cartografado, explorado – e sobre-explorado. As descobertas, hoje, terão de ser outras.
Se algum mérito me assiste (e gostaria de pensar que sim, ou este blogue não existiria), será o que fez aquele inglês sentar-se à minha mesa, numa manhã na costa do Vietname, e perguntar-me: «Olha lá, o que é que tu fazes para as pessoas chegarem ao pé de ti e te contarem a vida delas toda?» (E contou-me a vida dele toda...).
Nunca tinha pensado nisso. Pensava que o mesmo acontecia com as outras pessoas. E passei a observar. Foi então que reparei nos muitos viajantes de auscultadores enfiados nos ouvidos e nariz enfiado em ipods e ipads, em netbooks e tablets, em blackberries e phones mais smart que os donos. Chamam-lhe «a era da comunicação». Teclam, twitam, postam, contam likes. Mas, para mim, que sou uma rapariga antiquada, a comunicação é feita cara a cara, de viva voz, olhos nos olhos. Num mundo de aviões e downloads instantâneos, eu ando devagar, utilizando mais tempo que dinheiro. Ou, se calhar, o que faço nem é viajar, mas sim demorar-me sucessivamente em sítios diferentes, como os nómadas.
E viajo sozinha – ou melhor, a solo – acompanhada pelas muitas pessoas que vou conhecendo. São as histórias delas – mais do que as minhas – que justificam este blogue. Um blogue que, afinal de contas, conterá algumas façanhas: as das mulheres que criam filhos em campos de refugiados, ou as dos miúdos que andam a pé oito horas por dia para irem à escola.
Talvez estes textos consigam transmitir a imagem de um universo onde abundam os gestos de hospitalidade, de generosidade, e os pequenos heroísmos do quotidiano. Porque a espécie humana, não sendo de facto um primor, não é tão má como consta. As pessoas que encontro pelo caminho são, na esmagadora maioria, exemplos de hospitalidade, tolerância, heroísmo, trabalho, e até bom humor. E quando encontro a minoria dos que são desagradáveis, lembro-me das palavras de Khalil Gibran: «Aprendi tolerância com os intolerantes, e bondade com os maldosos.»
Talvez estes textos consigam também inspirar e sossegar as dúvidas de quem quer partir à descoberta do mundo e receie (como eu receava) que isso seja uma fantasia impraticável. Porque não é.
Se este blogue conseguir fazer alguma destas coisas, já justificou a sua existência. E talvez eu acabe, afinal, por ter algo de que me gabar.


Paquistão, 1988
Moçambique, 2011
Sarawak, 1989



Nepal, 2010
Rota da Seda, 1988

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